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O contratempo: atacando entre os tempos

O primo da síncope que nunca sustenta nada

O primo da síncope que nunca sustenta nada

Ficamos com essa ideia pendente: existe um recurso rítmico aparentado com a síncope, mas que funciona diferente. Enquanto a síncope desloca o acento sustentando uma nota sobre o tempo forte, esse outro recurso ataca diretamente no vazio entre os tempos e não sustenta nada por cima — chama-se contratempo, e é uma das ferramentas rítmicas mais usadas — e mais características — em gêneros como o ska, o reggae e boa parte da música popular latino-americana.

O que é exatamente um contratempo

Um contratempo é uma nota (ou um acorde) tocada exclusivamente na subdivisão fraca entre dois tempos, sem atacar o tempo forte em absoluto. Não há nada soando no tempo; o tempo fica em silêncio, e o único som que se escuta é o ataque no "e" intermediário.

A diferença com a síncope é fundamental e vale a pena destacar: na síncope, uma nota nasce no tempo fraco e se sustenta atravessando o tempo forte seguinte — há continuidade de som entre os dois. No contratempo, ao contrário, não há sustentação: o tempo forte fica diretamente vazio, sem ataque nem nota soando, e a única presença rítmica ocorre no espaço intermediário. São primos, mas um "rouba" o acento sustentando uma nota por cima; o outro simplesmente não toca onde se espera e ataca unicamente no vazio.

O exemplo mais claro: o "upstroke" do reggae

Pense no padrão rítmico mais característico do reggae: o violão (ou o piano) toca exclusivamente nos "es" de cada tempo, deixando completamente em silêncio os tempos 1, 2, 3 e 4. Conte em voz alta "um-E-dois-E-três-E-quatro-E", e repare que o ataque só ocorre nos "E" em maiúscula, nunca nos números. Isso é um contratempo puro: cada ataque cai exatamente entre dois tempos, e nenhum tempo é tocado diretamente.

Esse padrão é a coluna vertebral rítmica do reggae, mas também aparece —com variações— no ska, na cúmbia, no vallenato e em muitíssimos ritmos latino-americanos onde o violão ou o acompanhamento "preenche" os espaços vazios entre as batidas do baixo ou da percussão.

Como se sente no violão

Pegue seu violão e experimente isso com um acorde simples, digamos Dó maior. Em vez de tocar nos tempos 1, 2, 3 e 4, faça exatamente o contrário: abafe as cordas com a mão esquerda (ou simplesmente não toque) bem nesses quatro tempos, e toque unicamente nos quatro "es" intermediários. Conte em voz alta "um-E-dois-E-três-E-quatro-E", tocando só nos "E".

Você vai notar uma sensação bem diferente da síncope: aqui não há a tensão de uma nota sustentada "roubando" o acento, há diretamente um vazio no tempo, seguido de uma batida que cai exatamente no meio. É uma sensação de "quique", de antecipação constante, muito característica do reggae e do ska. O corpo tende a marcar o pé nos tempos fortes (que estão em silêncio) enquanto a mão ataca sempre no vazio.

Contratempo e síncope: como não confundi-los

Como os dois recursos deslocam a atenção para fora do tempo forte, é fácil confundi-los no começo. A forma mais simples de distingui-los é se perguntar: há uma nota soando sobre o tempo forte, ou o tempo forte está completamente em silêncio?

  • Se há uma nota que atravessa o tempo forte (sustentada desde antes) → síncope.
  • Se o tempo forte fica vazio e o ataque ocorre só no "e" → contratempo.

Uma citação para levar

Um exercício útil é pegar qualquer acorde e alternar, sem mudar nada na técnica da mão direita, entre dois padrões: primeiro toque nos quatro tempos (padrão "normal"), depois toque unicamente nos quatro "es" (padrão de puro contratempo), abafando as cordas nos tempos. Alterne entre os dois com metrônomo, devagar no começo, até que a mão direita aprenda a "esperar" o vazio antes de atacar.

O guitarrista jamaicano Ernest Ranglin, uma das figuras fundadoras do som do ska e do reggae, explicava que o segredo daquele "upstroke" característico não está em tocar mais rápido nem com mais força, mas em aprender a calar exatamente onde o ouvido espera uma batida. Poucas frases resumem melhor a essência do contratempo: seu poder nasce do silêncio no lugar esperado, não do som em si.

Com a síncope e o contratempo já bem distinguidos, resta um terceiro recurso rítmico a explorar, um que não desloca o acento nem o esvazia, mas reorganiza o próprio tempo por dentro: ele agrupa três notas exatamente no espaço que normalmente ocupam duas. É uma ferramenta diferente, com sua própria lógica matemática e seu próprio som, e merece um post dedicado. É disso que falaremos no próximo post.

O segredo não está em tocar mais rápido nem com mais força, mas em aprender a calar exatamente onde o ouvido espera uma batida. — Ernest Ranglin