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Como ler um lead sheet: melodia e cifrado em um único sistema

Uma página, uma música completa: o formato que falam o jazz, o pop e a música de sessão

Duas informações em uma única folha

No post anterior aprendemos o cifrado americano de acordes: o sistema de letras que comunica a harmonia de uma peça sem escrever uma única nota na pauta. Mas a harmonia é apenas metade de uma música. A outra metade é a melodia.

Um lead sheet combina as duas em uma única página: a melodia escrita em pauta com notação convencional, e os acordes escritos em cifrado americano acima de cada compasso. O resultado é a forma mais compacta e útil de representar uma música completa.

É o formato padrão dos livros de jazz (Real Book, Fake Book), dos arranjos de pop e da maior parte das partituras que circulam em sessões de gravação, ensaios informais e aulas de música moderna. Saber lê-lo abre uma biblioteca enorme.

Anatomia de um lead sheet

Um lead sheet bem construído tem sempre os mesmos elementos: na parte superior, o título da música, o nome do compositor, a indicação de tempo ou estilo, a armadura de clave e o compasso. Ao longo da pauta, a melodia principal em notas convencionais, os símbolos de acorde acima de cada compasso alinhados com o tempo exato da mudança, os sinais de repetição e a letra se o lead sheet a incluir.

É só isso. Sem acompanhamento escrito, sem arranjo específico, sem indicações de ornamentação. O lead sheet confia que o intérprete sabe construir sua parte a partir desses dois elementos: melodia e harmonia.

Como lê-lo como guitarrista

A leitura de um lead sheet na guitarra tem dois modos conforme o papel que você está assumindo. No modo acompanhador, você ignora temporariamente a melodia escrita e se concentra nos acordes do cifrado: toca o ritmo, o comping, os voicings que correspondem ao estilo. A melodia é levada por outros — o cantor, o saxofone, o trompete. Seu trabalho é construir o colchão harmônico sobre o qual essa melodia vai flutuar.

No modo solista ou arranjador, você usa tanto a melodia quanto o cifrado. Se está fazendo um arranjo para guitarra solo — fingerpicking, estilo clássico, jazz solo — precisa integrar a melodia nas cordas mais agudas enquanto o baixo e os acordes sustentam a harmonia nas cordas graves. Em ambos os casos, o primeiro passo é o mesmo: ler o lead sheet de cima a baixo antes de tocar a primeira nota.

Os acordes acima da pauta

A posição dos símbolos de acorde num lead sheet não é decorativa: é precisa. Cada símbolo é colocado acima do tempo exato onde o acorde muda. Se Dm7 aparece acima do terceiro tempo do compasso, o acorde muda naquele momento — não antes, não depois.

Quando há vários acordes num mesmo compasso, aparecem distribuídos horizontalmente em proporção ao tempo. Quando um acorde dura vários compassos, é escrito apenas uma vez no início. Em alguns lead sheets, uma barra oblíqua indica continua o mesmo acorde em cada tempo. Para o guitarrista que acompanha, ler essa distribuição com precisão é essencial: uma mudança de acorde deslocada meio compasso muda completamente a sensação rítmica da peça.

A melodia: cantá-la antes de tocá-la

Uma habilidade que os grandes músicos de jazz desenvolvem é a de cantar interiormente a melodia antes de tocá-la. Antes de colocar os dedos no instrumento, leem a melodia na pauta e a escutam mentalmente: a altura de cada nota, sua duração, sua relação com o acorde que soa abaixo.

Para o guitarrista, isso é especialmente valioso porque o instrumento tem uma curva de leitura mais lenta do que o piano ou o violino — a mesma nota pode estar em vários lugares do braço. Cantar a melodia primeiro permite internalizar o fraseado antes de tomar decisões técnicas sobre onde tocá-la. Quando encontrar um lead sheet novo, tarareie-o em voz baixa enquanto segue a melodia com o dedo na pauta.

O lead sheet como ponto de partida, não como destino

Uma ideia fundamental sobre o lead sheet: é um esqueleto, não uma partitura completa. Diz o quê, não o como. A melodia escrita é a melodia de referência; o intérprete pode ornamentá-la, variá-la, frasear com liberdade. Os acordes são a estrutura harmônica; o comping pode ser denso ou esparso, rítmico ou flutuante, conforme o estilo e o contexto.

Os grandes intérpretes de jazz — Bill Evans, Wes Montgomery, Joe Pass — leram lead sheets a vida toda, mas o que saía de seus instrumentos nunca soava a leitura. O lead sheet era a semente; a música era a árvore. Para o guitarrista em formação, o lead sheet é também uma ferramenta de estudo ideal: tendo apenas os elementos essenciais, obriga a tomar decisões interpretativas que uma partitura completa tomaria por você.

No próximo post deixaremos o mundo da notação e entraremos no ritmo: os compassos compostos, esse mundo onde o pulso se divide em três em vez de dois, e onde o 6/8, o 9/8 e o 12/8 dominam o jazz, o blues e a música celta.

Um lead sheet é metade de uma conversa. A outra metade você fornece. — Jamey Aebersold