Uma letra, um acorde: o sistema que torna possível tocar com qualquer músico do mundo
Entre em qualquer ensaio de jazz, pop ou rock em qualquer cidade do mundo. No estante você provavelmente verá uma folha com letras maiúsculas: A, Dm, G7, Cmaj7, F#m7b5. Sem uma única nota escrita em pauta, essa folha diz ao guitarrista exatamente quais acordes tocar e em que ordem.
Esse sistema é o cifrado americano de acordes — também chamado de notação de lead sheet ou simplesmente cifrado — e é hoje a forma mais difundida de comunicar harmonia na música popular, no jazz, no folk e em qualquer contexto onde os músicos improvisam, acompanham ou leem repertório rapidamente.
Para um guitarrista, entender esse sistema não é opcional. É o alfabeto da música que você mais vai tocar.
O cifrado americano usa sete letras do alfabeto para nomear as notas: A, B, C, D, E, F, G, que correspondem a Lá, Si, Dó, Ré, Mi, Fá, Sol. Aqui está a diferença fundamental com o sistema latino: no cifrado americano, A é Lá, B é Si, C é Dó. Uma vez internalizado esse mapeamento, o resto do sistema é completamente lógico.
As alterações se adicionam diretamente à letra: F# é Fá sustenido, Bb é Si bemol, Eb é Mi bemol. O sustenido se escreve com o símbolo # e o bemol com a letra b minúscula em contextos onde o símbolo ♭ não está disponível.
O bloco mais básico do cifrado é a distinção entre maior e menor. Um acorde maior se escreve com a letra sozinha em maiúscula: C é Dó maior, G é Sol maior, A é Lá maior. Sem nenhum acréscimo, a letra sozinha sempre indica acorde maior.
Um acorde menor se escreve com a letra seguida de m minúsculo ou min: Am é Lá menor, Dm é Ré menor, Em é Mi menor. Na guitarra, Am, Dm e Em são três dos acordes abertos mais usados — especialmente no repertório folk, flamenco e pop em espanhol. Reconhecê-los num cifrado e transferi-los para o braço é o primeiro passo prático.
A próxima camada de complexidade são os acordes com sétima. A sétima dominante (7) se escreve com a letra seguida do número 7: G7 é Sol sétima dominante, o acorde de tensão por excelência. Num blues de 12 compassos, quase todos os acordes são sétimas dominantes. A sétima maior (maj7) adiciona um som mais suave e flutuante, muito frequente em jazz e bossa nova: Cmaj7 é Dó com sétima maior.
A sétima menor (m7) como Am7 é um dos acordes mais usados no pop moderno e no jazz. A progressão Am7 – D7 – Gmaj7 é um ii-V-I em Sol maior, a célula básica do jazz tonal. Existem também a sétima diminuta (dim7 ou °7), de som muito tenso e cromático, e o semidiminuto (m7b5 ou ø), frequente como ii° em tonalidades menores.
O sistema pode continuar empilhando terças: a 9ª (9 ou add9), a 11ª (11 ou sus4) e a 13ª (13). A suspensão de quarta (sus4) é especialmente comum na guitarra: Asus4 é Lá com a quarta suspensa no lugar da terça, um acorde aberto que não define claramente maior nem menor. A distinção entre add9 (sem sétima) e 9 (com sétima dominante) é importante.
Os modificadores b e # alteram notas específicas: G7b9 é Sol sétima com a nona bemol; C7#11 é o característico acorde lídio dominante do jazz moderno. O modificador sus substitui a terça pela segunda (sus2) ou pela quarta (sus4). O modificador add adiciona uma nota sem incluir a sétima: Gadd9 é Sol maior com a nona mas sem sétima.
Uma convenção muito frequente é o acorde com baixo especificado, escrito com uma barra oblíqua: C/E significa Dó maior com Mi no baixo, G/B é Sol maior com Si no baixo. Essa notação é especialmente útil para o guitarrista acompanhador, indicando não apenas qual acorde tocar mas qual nota deve soar na corda mais grave.
Quando você vê Am – F – C – G, reconhece imediatamente uma das progressões mais usadas do pop em modo menor. Quando vê Dm7 – G7 – Cmaj7 – Fmaj7, reconhece um ii-V-I-IV em Dó maior: é jazz. O cifrado é uma partitura de harmonia, não de execução: define o conteúdo harmônico e deixa ao intérprete a liberdade de decidir a textura, o ritmo e a articulação.
No próximo post aprenderemos a ler um lead sheet: a combinação de melodia em pauta e cifrado de acordes que é o formato padrão do jazz e do pop para comunicar uma música completa em uma única página.
Os acordes são palavras. O cifrado é o vocabulário. Mas a música é a conversa. — Bill Evans
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