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O ponto de aumento e a ligadura de valor: como modificar a duração

Além das figuras exatas — a arte dos valores irregulares

O sistema tem lacunas

As figuras rítmicas que vimos até agora formam um sistema binário perfeito: cada figura vale exatamente metade da anterior. É elegante e coerente. Mas tem um problema: não permite representar diretamente qualquer duração.

Como se escreve uma nota que dure três tempos? Ou uma que dure um tempo e meio? As figuras sozinhas não são suficientes. Para esses casos, a notação musical desenvolveu duas ferramentas complementares: o ponto de aumento e a ligadura de valor.

O ponto de aumento: acrescentar a metade

O ponto de aumento é um pequeno ponto colocado à direita de uma figura. Seu efeito é sempre o mesmo: acrescenta à figura metade do seu próprio valor. Uma mínima com ponto dura três tempos: a mínima vale dois, o ponto acrescenta mais um. Uma semínima com ponto dura um tempo e meio: a semínima vale um, o ponto acrescenta meio. Uma colcheia com ponto dura três quartos de tempo: a colcheia vale meio, o ponto acrescenta um quarto.

A regra é universal e invariável: figura com ponto = figura + metade da figura. No violão, a semínima com ponto é uma das figuras mais frequentes do repertório popular e do flamenco. Quando você ouve aquele ritmo característico de longa-curta numa rumba ou numa melodia pop, quase sempre há uma semínima com ponto seguida de uma colcheia. Essa combinação ocupa exatamente dois tempos: um e meio mais meio.

O duplo ponto: ainda mais preciso

Existe também o duplo ponto: dois pontos à direita da figura. O segundo ponto acrescenta metade do valor do primeiro, ou seja, um quarto do valor original da figura.

Uma mínima com duplo ponto dura três tempos e meio: dois da mínima, um do primeiro ponto e meio do segundo. É uma figura menos frequente, mas aparece na música romântica e em alguns estilos de jazz onde a subdivisão é muito detalhada.

A ligadura de valor: unir duas notas em uma

A ligadura de valor é uma curva que une duas notas da mesma altura. Seu efeito é simples: as duas notas soam como uma só, com duração igual à soma de ambas. Uma semínima ligada a uma colcheia dura um tempo e meio — exatamente o mesmo que uma semínima com ponto. Uma mínima ligada a uma semínima dura três tempos — exatamente o mesmo que uma mínima com ponto.

Então por que existe a ligadura se o ponto faz o mesmo? Por duas razões fundamentais. A primeira: a ligadura pode cruzar a barra de compasso. Se uma nota começa no último tempo de um compasso e precisa se prolongar até o primeiro tempo do seguinte, o ponto não pode representar isso — a barra o interromperia visualmente. A ligadura pode cruzar a barra.

A segunda razão: a ligadura permite criar durações que não são múltiplos simples. Uma semínima ligada a uma semicolcheia dura cinco dezesseis avos de tempo — uma duração que nenhum ponto pode representar diretamente.

Como executá-los no violão ou guitarra

A diferença técnica entre uma nota com ponto e uma nota ligada é zero: em ambos os casos dedilha-se a corda uma única vez e deixa-se ressoar durante toda a duração. A diferença é apenas de notação.

O que requer atenção é a contagem. Uma semínima com ponto seguida de colcheia é um ritmo assimétrico que o ouvido demora a internalizar. O truque é praticá-lo com o metrônomo contando as menores subdivisões: se a pulsação é a semínima, contar em colcheias — um-e, dois-e — e sentir que a nota longa ocupa «um-e» e a curta ocupa apenas «dois». Com o tempo, esse padrão longa-curta se torna um gesto físico automático.

Para continuar pensando

Com o ponto e a ligadura, o sistema rítmico pode representar praticamente qualquer duração. Mas há uma dimensão do tempo musical que ainda não exploramos: a pulsação, essa unidade invisível que organiza tudo o que vimos. O que é exatamente a pulsação? De onde vem? Por que o corpo humano a sente antes de a mente processá-la? É isso que exploraremos no próximo post.

A notação musical é um mapa, não o território. O território é o som. — Murray Schafer