Os primeiros instrumentos: flautas de osso e litofones
O momento exato em que algo mudou
O post anterior terminou com uma imagem: alguém sopra pela primeira vez através de um osso oco. É um momento tão pequeno, tão silencioso na aparência, que é difícil imaginar o seu peso histórico. E no entanto, nesse gesto — talvez acidental, talvez deliberado — aconteceu algo que nunca havia ocorrido antes na história de nenhuma espécie sobre a Terra: um ser vivo pegou um objeto do mundo exterior e transformou-o num instrumento musical.
Não é um exagero. Os pássaros cantam, as baleias emitem sequências complexas, os chimpanzés batem em galhos. Mas nenhum animal, até onde sabemos, jamais tomou um objeto inerte, transformou-o deliberadamente e o usou para produzir som de forma intencional e controlada. Esse salto — do uso do corpo ao fabrico de uma extensão sonora do corpo — é um dos gestos mais profundamente humanos que conhecemos.
Os vestígios desse gesto sobreviveram. E o que nos contam é fascinante.
Em 1995, numa gruta chamada Divje Babe, na Eslovénia, arqueólogos encontraram um fragmento de fémur de urso-das-cavernas perfurado com dois orifícios circulares. Tinha entre 50 000 e 60 000 anos de antiguidade. Durante anos foi objeto de um debate aceso: tratava-se de uma flauta fabricada por neandertais, ou simplesmente de um osso roído por um carnívoro?
O debate continua aberto em alguns círculos académicos, mas as análises mais recentes — incluindo modelos computacionais sobre como um carnívoro produziria marcas nesse tipo de osso — apoiam maioritariamente a hipótese do fabrico intencional. Se estiver correta, isso significaria que não só o Homo sapiens fabricou instrumentos: os neandertais também o teriam feito, dezenas de milhares de anos antes de a nossa espécie chegar à Europa.
Mas a descoberta mais contundente, aquela que não deixa margem para dúvida, chegou em 2008 nas grutas de Hohle Fels e Vogelherd, no sul da Alemanha. Ali apareceram várias flautas com uma antiguidade entre 35 000 e 40 000 anos: algumas talhadas em osso de abutre-do-Egipto, uma delas em marfim de mamute. A flauta de osso de abutre de Hohle Fels, com cinco orifícios digitais e uma embocadura em forma de V, estava suficientemente bem conservada para que os investigadores pudessem reconstruí-la e tocá-la. O som que produz — existem gravações — é claro, afinado e expressivo. Não é um apito rudimentar. É um instrumento musical em toda a extensão da palavra.
O que isto implica merece uma pausa: há 40 000 anos, um ser humano passou horas a talhar um osso frágil com ferramentas de pedra, perfurou orifícios com uma precisão milimétrica, e produziu um objeto capaz de gerar música melódica com controlo de altura. Esse nível de planeamento, habilidade técnica e intenção estética não é próprio de uma espécie que acabou de descobrir o fogo. É próprio de uma espécie que já possuía uma cultura musical desenvolvida.
A escolha dos materiais não foi arbitrária. O osso e o marfim ofereciam vantagens específicas que os artesãos dessa época souberam reconhecer e aproveitar.
O osso de ave — especialmente o do abutre-do-Egipto, cuja envergadura pode atingir 2,5 metros — é naturalmente oco, leve e resistente. A sua estrutura tubular é quase perfeita para a construção de um aerofone: basta limpar o interior, calcular a posição dos orifícios e criar a embocadura. O trabalho é delicado, mas o material já traz a forma.
O marfim de mamute é muito mais difícil de trabalhar: denso, curvo na sua forma natural, propenso a rachar. Fabricar uma flauta de marfim exigia dividi-lo em duas metades, esvaziá-las, talhar os orifícios e uni-las novamente com uma junta hermética — provavelmente com resina ou gordura animal. É um processo com várias etapas que implica planeamento a longo prazo e um conhecimento profundo do material. A flauta de marfim de Hohle Fels não é um objeto de uso casual: é um artefacto de elevada manufatura.
Que alguém tivesse investido esse nível de esforço no fabrico de um instrumento musical diz-nos algo crucial: a música não era um luxo nem um entretenimento acessório. Era suficientemente importante para justificar dias de trabalho especializado com materiais escassos e técnicas exigentes.
As flautas são os instrumentos pré-históricos mais conhecidos, mas não são os únicos. Existe outra categoria que recebe muito menos atenção e que é igualmente reveladora: os litofones.
Um litofone é, na sua forma mais simples, uma pedra que soa. Não todas as pedras soam da mesma forma: algumas, ao ser percutidas, produzem sons abafados sem altura definida. Mas certas rochas — em particular algumas variedades de xisto e basalto — produzem tons claros, sustentados e musicalmente utilizáveis. Em diversas partes do mundo, arqueólogos encontraram coleções de pedras com marcas de uso repetido nas suas superfícies, dispostas de uma forma que sugere uma seleção deliberada pelas suas qualidades sonoras.
Em França, na gruta de Nerja e em sítios de África e da Ásia, foram documentadas pedras com estas características. No Vietname, o Museu de História de Hanói conserva um conjunto de litofones da cultura Đông Sơn com mais de 3 000 anos de antiguidade — tecnologicamente mais tardios do que as flautas alemãs, mas parte da mesma história de descoberta do mundo sonoro dos objetos.
O litofone representa um tipo de achado diferente do da flauta. A flauta é um instrumento fabricado: alguém pegou num material e transformou-o. O litofone, nas suas formas mais primitivas, pode ser simplesmente uma pedra encontrada e reconhecida pelas suas qualidades sonoras. Esse reconhecimento — ouvir num objeto natural algo musicalmente útil — é em si mesmo um ato de escuta ativa, de perceção musical aplicada ao mundo exterior. O ser humano não só fez soar objetos: aprendeu a escutar o mundo como se fosse um instrumento.
Nesse quarto ponto esconde-se algo imenso: a música não era apenas uma experiência individual. Era já, há 40 000 anos, uma prática cultural partilhada, com os seus saberes, as suas técnicas e as suas tradições.
A arqueologia tem os seus limites, e convém reconhecê-los. O que sobreviveu são os instrumentos feitos de materiais duros: osso, marfim, pedra. Mas é quase certo que existiram instrumentos de materiais orgânicos perecíveis — madeira, cana, pele, fibras vegetais — que não deixaram rasto. As flautas de Hohle Fels não são os primeiros instrumentos; são os primeiros que podemos ver. A história real é provavelmente muito mais longa e mais rica do que a evidência conservada nos permite imaginar.
Isso significa que quando olhamos para essas flautas de 40 000 anos, não estamos a ver a origem da música instrumental. Estamos a ver uma fotografia de um momento já avançado de um processo que começou muito antes, em materiais que o tempo levou consigo.
Há um último elemento que os arqueólogos têm sublinhado com insistência: a maioria dos instrumentos pré-históricos mais antigos que conhecemos não aparece em contextos domésticos. Aparecem em grutas, junto a pinturas rupestres, em espaços que a evidência sugere terem tido um uso ritual ou cerimonial.
Essa coincidência não parece casual. Os instrumentos não nasceram no acampamento; nasceram no templo. Ou, mais exatamente: o primeiro templo da humanidade e o primeiro palco musical foram o mesmo lugar.
Explorar o que acontecia nesses espaços — que relação existia entre o som, a imagem pintada na rocha e a escuridão da gruta — é precisamente a questão que nos aguarda no próximo post.
Fabricar um instrumento musical é o ato de escuta mais ambicioso que existe: significa que ouviste no mundo algo que ainda não soa, e decidiste fazê-lo soar. — Reflexão do etnomusicólogo Victor Grauer sobre as origens da música instrumental
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