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Mesopotâmia e Suméria

Quando alguém decidiu que o som não devia perder-se

O problema mais antigo da música

Tudo o que vimos até agora — as ressonâncias das grutas, os rituais egípcios, os instrumentos que acompanhavam os mortos — tem um traço em comum: era música que existia no momento da sua execução e depois desaparecia. Música que vivia na memória de quem a tinha aprendido, transmitida de mestre para discípulo, de geração em geração, mas que não deixava qualquer vestígio fora do corpo humano.

Esse é o problema mais antigo e mais profundo de la música: é a única arte que desaparece no próprio instante em que é criada.

Uma pintura rupestre de Lascaux ainda lá está, trinta mil anos depois. Uma flauta de osso pode ser segurada na mão. Mas a música que soou naquela gruta, que foi tocada com aquela flauta, partiu com o último fôlego de quem a executou. Não há forma de a recuperar.

Em determinado momento, algures entre os rios Tigre e Eufrates, alguém decidiu que isso era inaceitável. E mudou-o.

O mundo que inventou a escrita

A Mesopotâmia — o território que hoje corresponde principalmente ao Iraque, com partes da Síria e da Turquia — é um dos berços mais antigos da civilização organizada. Entre os sumérios, os acádios, os babilónios e os assírios, esta região foi durante milénios o laboratório onde a humanidade inventou ou aperfeiçoou algumas das suas ferramentas mais fundamentais: a cidade, a lei escrita, o comércio em grande escala, a astronomia sistemática e, de forma crucial para a nossa história, a escrita.

A escrita cuneiforme — assim chamada porque os seus traços em forma de cunha eram impressos em tábuas de argila húmida — surgiu na Suméria por volta de 3200 a.C., inicialmente como sistema de contabilidade: listas de bens, registos de trocas, inventários de templos. Mas a escrita, uma vez inventada, tem uma tendência irresistível para se expandir. Passou a ser usada para registar leis, mitos, correspondência, observações astronómicas. E música.

A tábua que mudou a história

Em 1950, arqueólogos a escavar a antiga cidade de Ugarit — na costa da actual Síria, uma região culturalmente ligada ao mundo mesopotâmico — encontraram algo que levaria décadas a decifrar completamente: uma tábua de argila com sinais cuneiformes que, verificou-se, continham uma composição musical.

Esta tábua, conhecida como o Hino a Nikkal ou H.6 (datada de cerca de 1400 a.C., embora reflicta uma tradição notacional que remonta séculos antes), é o exemplo mais completo de notação musical que sobreviveu da Antiguidade. Não é apenas um texto com letra: contém instruções de afinação, nomes de intervalos e indicações sobre como as cordas de um instrumento semelhante a uma harpa ou lira deviam ser tocadas.

Para compreender o que isto significa, é preciso pensar no que implica escrever música pela primeira vez. Não se trata apenas de anotar que notas tocar. Implica ter desenvolvido previamente um quadro conceptual: a ideia de que os sons têm nomes, que as relações entre eles podem ser descritas, que essas descrições podem ser lidas por alguém que não estava presente quando foram escritas e usadas para reproduzir algo reconhecidamente próximo do original.

Isso é uma revolução do pensamento, não apenas uma inovação técnica.

Afinar o cosmos: os sistemas de afinação mesopotâmicos

O que torna os mesopotâmicos especialmente fascinantes não é apenas o facto de terem escrito música, mas a forma como pensaram sobre ela.

As tábuas da biblioteca do rei assírio Assurbanípal em Nínive — datadas de cerca do século VII a.C., mas que recolhem tradições muito mais antigas — contêm textos que descrevem sistemas de afinação para instrumentos de corda. Esses textos enumeram os nomes dos intervalos, as formas de apertar e afrouxar as cordas para passar de um modo a outro, e as relações matemáticas entre as diferentes alturas sonoras.

Por outras palavras: os músicos mesopotâmicos não se limitavam a tocar. Teorizavam. Tinham um vocabulário técnico para descrever a música, uma concepção dos intervalos como entidades com nomes e propriedades, e procedimentos práticos para afinar os instrumentos segundo diferentes sistemas.

Os musicólogos identificaram pelo menos sete modos ou escalas distintos nestes textos, cada um com o seu próprio nome. Não é descabido ver nisto um precursor directo — ou pelo menos um paralelo significativo — dos modos que os gregos desenvolveriam séculos mais tarde e que, como veremos, viriam a tornar-se a base de toda a teoria musical ocidental.

O instrumento no centro de tudo: a harpa e a lira

Se o Egipto era o mundo da grande harpe monumental, a Mesopotâmia foi o mundo da lira.

A lira mesopotâmica — da qual foram encontrados exemplares em estado de conservação extraordinário nas tumbas reais de Ur, datadas de cerca de 2500 a.C. — é um instrumento de cordas dedilhadas com uma caixa de ressonância e dois braços que suportam uma barra transversal. As liras de Ur, decoradas com cabeças de touro em ouro e lápis-lazúli, são simultaneamente objectos musicais e obras de arte de primeira grandeza. A sua presença em tumbas reais — junto aos corpos dos músicos enterrados com os seus instrumentos — diz tudo o que precisamos de saber sobre o lugar que a música ocupava na hierarquia do sagrado e do político na Mesopotâmia.

Mas a lira não era apenas um instrumento de elite. Era também o instrumento do ritual quotidiano, dos hinos aos deuses, das canções que acompanhavam as colheitas e os banquetes. Os textos sumérios contêm referências a músicos profissionais ligados aos templos, a concursos musicais, a géneros específicos com nomes próprios: hinos, lamentações, cantos de trabalho.

A música na Mesopotâmia era uma actividade tão organizada e especializada como a administração ou a justiça. Tinha as suas instituições, as suas hierarquias e, graças à escrita, começava a ter a sua memória.

Enheduanna: a primeira compositora da história com nome conhecido

É aqui que a história dá uma das suas voltas mais surpreendentes.

O nome mais antigo de um compositor ou compositora que conhecemos não pertence a un homem grego nem a um mestre medieval europeu. Pertence a uma sacerdotisa suméria chamada Enheduanna, filha do rei acádio Sargão de Acad, que viveu por volta de 2285-2250 a.C.

Enheduanna era a sumo-sacerdotisa do deus lua Nanna na cidade de Ur, e é autora de uma colecção de hinos à deusa Inanna que sobreviveram em cópias cuneiformes. Estes hinos — que combinam poesia, teologia e música — são os primeiros textos do mundo em que conhecemos o nome de quem os criou.

Não sabemos exactamente como soavam. Mas sabemos que existiram, que alguém os compôs conscientemente, que essa pessoa considerou importante assiná-los, e que a tradição posterior os preservou durante séculos porque eram considerados obras de valor extraordinário.

Quatro mil anos antes de a história da música ocidental mencionar pela primeira vez uma mulher compositora, Enheduanna já tinha assinado a sua.

O que a Mesopotâmia deixou à história

O legado musical mesopotâmico nem sempre recebe a atenção que merece, em parte porque é menos visível do que o do Egipto ou da Grécia. Os seus instrumentos estão dispersos por museus em todo o mundo. As suas tábuas requerem décadas de trabalho philológico para serem decifradas. A sua música não pode ser ouvida, apenas reconstituída com maior ou menor especulação.

Mas o que trouxe é fundamental: a ideia de que a música pode ser descrita com palavras e símbolos, que os intervalos têm nomes, que os modos podem ser sistematizados, que uma composição pode sobreviver ao seu criador si alguém se der ao trabalho de a escrever.

Essa ideia — que hoje parece óbvia — foi no seu tempo uma das transformações mais profundas da história do pensamento musical. Sem ela, não haveria partitura. Sem partitura, não haveria possibilidade de transmitir com precisão as obras de Bach, de Mozart, de qualquer compositor de qualquer época.

Tudo começa aqui, no barro de dois rios.

O passo seguinte neste caminho levar-nos-á a uma civilização que pegou nestas ideias — a sistematização dos intervalos, a relação entre música e matemática, a busca dos princípios que governam o som — e as transformou em objectos de filosofia, de ciência e de mito. Os gregos não se limitaram a usar a música: pensaram-na. E ao pensá-la, mudaram para sempre a forma como o Ocidente a entenderia.

"Nos dias em que o céu foi separado da terra, nos dias em que os decretos do céu e da terra foram estabelecidos... Enheduanna entoa o hino à senhora de todos os poderes." — Hino a Inanna, atribuído a Enheduanna, c. 2250 a.C. (adaptação de tradução do sumério)

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